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Dinheiro bom não é magia

O que os investimentos sustentáveis podem fazer e onde eles param.


investimentos sustentáveis no Brasil
investimentos sustentáveis no Brasil

Quando fiz trabalhos em parceria com a Yunus Negócios Sociais, uma cena era frequente. Empresas chegavam interessadas em investir em fundos sociais — na maioria das vezes, entrando nesse universo pela primeira vez. Tinham boa intenção e algo parecido com encantamento. Queriam um fundo que rendesse bem e, ao mesmo tempo, fizesse o bem. Como se fosse possível colocar dinheiro em algum lugar e ver sair, do outro lado, lucro e transformação social em igual medida. A intenção era boa. A ilusão, compreensível, mas faltavam muitas camadas.


Esse encantamento diz algo sobre o momento que vivemos. Nunca se falou tanto em investimento sustentável. O patrimônio líquido de fundos com critérios socioambientais cresceu 59% no Brasil nos últimos anos. Bancos como Itaú e Banco do Brasil oferecem carteiras focadas em empresas com alta pontuação de sustentabilidade. O BNDES emite títulos verdes para financiar energia renovável e agricultura de baixo carbono. Mecanismos como o FINACA, em São Paulo, atraem capital privado para projetos de resiliência climática. É um movimento real e necessário.


Mas o encantamento das empresas que passavam pela Yunus me lembra que ainda existe uma lacuna entre o que esse mercado promete e o que ele entrega. E, mais importante, entre o que ele pode entregar e o que nenhum fundo vai conseguir.


O que é isso tudo, afinal


Vou abrir alguns termos que circulam nesse universo.


Fundos IS (Investimento Sustentável) e ESG são instrumentos financeiros que incorporam critérios ambientais, sociais e de governança na escolha de onde investir. Não é filantropia. O objetivo ainda é o retorno financeiro, mas considerando esses fatores como parte da análise de risco e oportunidade. Dentro dessa família, existem também ETFs que seguem índices de sustentabilidade, como o ISE B3 e o ICO2, permitindo ao investidor comum aplicar em carteiras de empresas com melhores práticas ambientais e de eficiência de carbono, sem precisar escolher ativo por ativo.


Uma estratégia mais antiga, e ainda muito relevante, é o Investimento Socialmente Responsável, o SRI. Aqui o critério é ético antes de ser financeiro: excluem-se setores inteiros como armas, tabaco ou combustíveis fósseis. Não é sobre maximizar impacto positivo, mas sobre não financiar o que se considera inaceitável.


Títulos verdes e debêntures ESG são formas de captar dinheiro no mercado para financiar projetos com benefício ambiental ou social (energia solar, saneamento, reflorestamento, eficiência energética). Quem compra o título empresta dinheiro e recebe de volta com juros, como em qualquer renda fixa. A diferença está no destino do recurso e na obrigação de reportar o que foi feito com ele. As debêntures de infraestrutura seguem lógica parecida, com foco em setores estruturantes como energia renovável e saneamento básico.


O private equity de impacto vai mais fundo. São investimentos diretos em empresas de capital fechado que buscam resolver problemas sociais ou ambientais específicos. O horizonte é mais longo, o risco é maior, mas a possibilidade de mudança estrutural também é maior.


Blended finance talvez seja o mais interessante e o menos conhecido. É a combinação de recursos públicos ou filantrópicos com capital privado para viabilizar projetos que, sozinhos, o mercado não financiaria. O recurso público entra para absorver o risco inicial, o que chamamos de fundo a perder, e isso torna o projeto atrativo para o investidor privado que precisa de algum retorno.


A taxonomia sustentável, por sua vez, é o sistema de classificação que define o que pode ser chamado de investimento sustentável. É uma régua. Sem ela, qualquer empresa pode chamar qualquer coisa de verde. A União Europeia já tem uma taxonomia regulada. O Brasil ainda está construindo a sua. Isso importa muito porque, sem critérios claros, o mercado se enche de greenwashing, a prática de maquiar como sustentável o que não é.


O que o mercado consegue fazer


O crescimento desses instrumentos não é cosmético. Ele sinaliza que o setor financeiro começou a precificar riscos que antes ignorava: mudança climática, desigualdade, perda de biodiversidade. Isso muda decisões de investimento. Empresas com práticas ruins passam a ter custo de capital mais alto. Setores de energia limpa atraem mais recursos. ETFs de sustentabilidade tornam esse movimento acessível a investidores individuais. Debêntures de infraestrutura direcionam capital para onde o país mais precisa crescer.


O blended finance, quando bem estruturado, consegue levar capital a lugares onde ele não chegaria de outra forma. A Yunus faz exatamente isso com empreendedores sociais, pessoas com projetos viáveis mas sem as garantias que o sistema financeiro tradicional exige. É muito. E precisa ser mais usado e mais conhecido.


Onde o mercado para

 

Há um limite para o investimento social privado. E ele é estrutural. O mercado de capitais precisa de retorno. Mesmo o blended finance, mesmo o impacto mais generoso, opera dentro dessa lógica. Existe uma faixa de problemas sociais e ambientais onde não há retorno possível, onde o investimento é, por natureza, a fundo perdido. Saneamento em comunidades remotas. Serviços de saúde em territórios periféricos. Recuperação de ecossistemas degradados que não geram ativo financeiro.


Para essas demandas, só o Estado pode entrar. Não porque o mercado seja ruim, mas porque alguns problemas não têm modelo de negócio. Quando tentamos forçar um, distorcemos o problema ou excluímos quem mais precisa.


O que me preocupa não é o crescimento dos investimentos sustentáveis. É quando esse crescimento alimenta a narrativa de que o mercado resolve. De que basta alinhar capital com impacto e o desenvolvimento acontece. Não acontece.


O que precisamos entender


Aquelas empresas que chegavam à Yunus com o brilho nos olhos não estavam erradas em querer. Estavam, na maioria das vezes, no começo de um entendimento que leva tempo. Algumas voltavam depois com perguntas melhores. Outras sumiam, talvez em busca de algo que soasse mais como mágica.


Investimento sustentável não é mágica. É uma ferramenta real, ainda subutilizada, que precisa de critérios sérios para não virar vitrine. Mas ferramenta não é política pública. Capital privado não substitui Estado. E os problemas que mais pesam na vida de quem vive na periferia do desenvolvimento raramente cabem em nenhuma carteira.


O que eu aprendi trabalhando nesse campo é simples: quanto mais honesta for a conversa sobre o que o dinheiro alcança e onde ele para, mais útil ele se torna.

 
 
 

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