O clima que não vemos mudar
- Alexandre Quevedo

- há 1 dia
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Tem uma cena que me volta com frequência quando penso em mudanças climáticas no Brasil. Não é a imagem das enchentes no Rio Grande do Sul de 2024, que ficaram em loop nas redes sociais por semanas. Nem é o mapa de calor laranja cobrindo quase todo o país que volta a aparecer toda vez que o verão começa. É uma cena menor, cotidiana, do tipo que a gente esquece em algumas horas.
Vejo um entregador de moto parado no semáforo no meio do dia, em maio, com o sol de rachar, mesmo depois do verão acabar. Capacete fechado, roupa de trabalho, a temperatura marcando 38°C. Ele não tem ar-condicionado para correr. Não tem sombra para esperar. Não tem chefe que vai dizer para ele parar quando ficar quente demais porque ele é informal, e informal não tem chefe, tem meta. Esse entregador existe aos milhões no Brasil. E o que está acontecendo com o clima vai atingi-lo antes de qualquer outra pessoa.
A crise climática no Brasil costuma ser contada pelas suas imagens mais dramáticas: casas levadas pela enxurrada, cidades submersas, rios secos que viram poeira. Esses eventos são reais e cada vez mais frequentes. Mas o que me parece mais urgente contar não é o episódio catastrófico. É o fio que conecta o desmatamento na Amazônia a uma seca no Mato Grosso do Sul, e essa seca ao preço do feijão que sobe na quitanda da periferia de São Paulo, e como esse preço afeta uma família que já vive no limite.
O rio que você não vê no céu
Existe um rio no céu do Brasil. Um rio invisível, feito de vapor de água, que carrega umidade da Bacia Amazônica para o Centro-Oeste, Sudeste e Sul do país, transformando-se em chuva quando encontra as condições meteorológicas certas. Riosvoadores Esse fenômeno tem um nome ao mesmo tempo poético e preciso: rios voadores.
O mecanismo começa no Oceano Atlântico. Os ventos trazem umidade para dentro da floresta. As árvores devolvem essa água para a atmosfera pela evapotranspiração, recarregando o ar de vapor que continua sendo transportado para o oeste. Quando esses rios voadores encontram a barreira da Cordilheira dos Andes, fazem a curva e partem em direção ao sul, levando umidade para o Centro-Oeste, Sudeste e Sul do Brasil. O volume de água transportado pode chegar à vazão do Rio Amazonas. São correntes invisíveis que regam lavouras, abastecem reservatórios, determinam quando vai chover no Mato Grosso do Sul.
O problema é que um estudo publicado na Nature Communications por pesquisadores da USP revelou que 74,5% da redução das chuvas na Amazônia é consequência direta do desmatamento. Menos floresta significa menos evapotranspiração, rios voadores mais fracos e, portanto, menos chuva no Centro-Oeste. Os produtores rurais já sentem no bolso: as safrinhas estão cada vez menos rentáveis porque as chuvas estão diminuindo. O agronegócio, que muitas vezes se posiciona contra as pautas ambientais, está destruindo a infraestrutura hídrica da qual depende para existir.
Quando o calor vira imposto sobre os pobres
O calor extremo opera como um imposto invisível sobre quem não tem escolha de onde trabalhar ou quando parar. Cerca de 32,5 milhões de trabalhadores brasileiros atuam a céu aberto em agricultura, construção civil e pesca, muitos em condições de informalidade. Para eles, nas regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste, os índices de calor já ultrapassam os limites de tolerância em mais de 70% da jornada de trabalho.
O impacto é direto na renda. Se um trabalhador perde 10% do tempo produtivo num dia de calor extremo, perde também 10% do salário daquele dia. Para quem é informal, isso não se dilui em benefícios ou férias pagas. Some. As cidades brasileiras, marcadas pela urbanização sem planejamento, empurraram a população mais pobre para áreas de risco, tornando-a também a mais vulnerável a deslizamentos, enchentes e ilhas de calor. Um levantamento da TETO Brasil com moradores de 119 territórios mostrou que mais de 80% das comunidades já enfrentaram ao menos um evento climático extremo no último ano. Isso não é uma projeção, é algo que está acontecendo agora.
A conta que não fecha
O Banco Mundial estima que eventos climáticos extremos podem custar US$ 2,6 bilhões e colocar até 3 milhões de brasileiros na pobreza nas próximas décadas. O mecanismo é encadeado: o desmatamento enfraquece os rios voadores, que reduzem as chuvas, que comprometem as safras, que pressionam os preços dos alimentos, que afetam com mais severidade os mais pobres e, enquanto isso, o calor vai corroendo a produtividade de quem trabalha ao ar livre, exatamente quem já vive com a menor margem.
Para quem trabalha com empresas e sustentabilidade, a pergunta que não para de crescer é sobre responsabilidade. A resposta fácil é falar em redução de emissões. Essa resposta é necessária, mas insuficiente. O Brasil já está dentro de uma crise que vai se aprofundar independentemente do que fizermos nos próximos anos. As empresas que operam aqui têm cadeias que dependem de trabalhadores rurais, de logística em regiões quentes, de populações em áreas de risco. O calor que vai comprometer a produtividade desses trabalhadores vai aparecer nas margens operacionais antes de aparecer nos relatórios de sustentabilidade. Investir em proteger as pessoas mais vulneráveis dessas cadeias não é caridade. É reconhecer que a crise climática já chegou, e que a conta vai ser paga por alguém.
O entregador no semáforo não escolheu trabalhar naquele calor. O que o clima está fazendo é estreitar ainda mais o corredor de escolhas de quem já vivia com pouco espaço para escolher. E o que nós, como sociedade e como empresas, decidirmos fazer com isso vai determinar quanta gente vai continuar sendo arrastada por uma corrente que nem mesmo ajudou a criar.
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Fontes
¹ Rios Voadores — Fenômeno dos rios voadores. Projeto Rios Voadores / Brasil das Águas. Disponível em: riosvoadores.com.br
² Franco, M.A. et al. — Desmatamento na Amazônia enfraquece os rios voadores, diminuindo as chuvas pelo Brasil. Nature Communications, 2025. Via Instituto Humanitas Unisinos. Disponível em: ihu.unisinos.br
³ Funbio — Rios Voadores: o ciclo hidrológico e a dependência do agronegócio. Disponível em: funbio.org.br
⁴ Fundacentro / Ministério do Trabalho e Emprego — Calor extremo no trabalho exige ação imediata. Seminário Pré-COP30, outubro de 2025. Disponível em: gov.br/trabalho-e-emprego
⁵ Dantas, L.G. et al. — Perdas de produtividade e custos econômicos projetados devido ao estresse térmico em cenários de mudanças climáticas no Brasil. Scientific Reports, dezembro de 2025. Via Fundacentro. Disponível em: gov.br/fundacentro
⁶ UFSM / PET Educom Clima — Os impactos das mudanças climáticas nas cidades brasileiras, março de 2025. Disponível em: ufsm.br
⁷ TETO Brasil — Panorama Climático das Favelas e Comunidades Invisibilizadas, outubro de 2025. Disponível em: br.techo.org
⁸ Banco Mundial — Relatório sobre Clima e Desenvolvimento para o Brasil, maio de 2023. Via ClimaInfo. Disponível em: climainfo.org.br
⁹ Observatório das Desigualdades / FJP — As desigualdades sociais refletidas nas questões ambientais. Disponível em: observatoriodesigualdades.fjp.mg.gov.br

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